Os partidos políticos são meros veículos vinculativos das nossas ideias, o suposto é eles nos representarem e assim conseguirmos fazer "ouvir" as nossas ideias ou pensamentos a nível nacional. Ou seja em termos representativos devem ser eles a voz do povo, ou pelo menos da fracção que se lhes é militante. Mesmo que seja o Partido da Terra ou o Movimento Mérito e Sociedade. É que de PT os mais conhecidos são aquela empresa portuguesa que é gerida por um monhé, e aqueles jovens musculados que fazem emagrecer os gordos supostamente só lhes gritando palavras de incentivo. Já MMS, basta se ter um telemóvel e menos de 30 anos para se saber o que é. 40 vá.
Esta conversa vem a propósito de uma conversa com amigos sobre as parvoíces que vamos escrevendo por aqui. Diziam-me que manifestava claramente as minhas convicções políticas. Bem, isso é óptimo, porque assim podiam me ajudar, é que eu não tenho partido e podiam me esclarecer onde encaixava. Se calhar o problema é meu, "uauu 20 e não é militante de nada, coitadinho". Tenho ideias, tenho convicções, que são as minhas. Não são a do PSD, PCP ou BE. São as minhas, até porque nunca votei duas vezes no mesmo partido. Bem, só pude votar duas vezes por isso não pensem que sou assim tão Fernando Nobre.
Voto conforme os assuntos, consoante os temas as minhas preferências vão de encontro a quem me identifico. Por exemplo, sou a favor do aborto, da despenalização das drogas leves, do casamento homossexual mas sou contra o fim das touradas. Até sou a favor dos touros de morte. Então e agora como caviar nos comícios do bloco ou vou às feiras com o Portas? ! Ajudem-me. É que me sinto perdido sem partido. Se calhar se eu tivesse um partido era mais fácil. Bastava eles decidirem a direcção e eu dizia "Amén!". E fazia o que eles diziam. O problema é que não sou católico. Mais uma dica, parece então que não posso ser de direita, pois temos que ser católicos e devotos, ou pelo menos aparentemente.
No outro dia, o Ricardo Costa (director do expresso, comentador Sic e um dos melhores analistas políticos da actualidade quanto a mim) referia que a militância do bloco era na globalidade a melhor informada, a melhor preparada, porque é maioritariamente urbana e como tal muitos votos fugiriam de lá, para se tornar votos úteis de esquerda no PS. Isto é muito giro, não fosse dar-se o caso de o PS não ser mais de esquerda. Se o mundo político fosse um planeta, e a sua representação cartográfica fosse um Mapa-Mundí normal, o PS está tão violentamente a chegar-se à direita e por consequência a empurrar o PSD ainda mais para a direita que qualquer dia atiram o CDS borda fora e surge no outro lado, como partido de extrema esquerda.
Apesar de saber dos males que me acontecerão por afirmar isto, há que reconhece-lo. Não foi fácil, mas hoje ganhei coragem para isso. Mãe, Pai, sou de esquerda. Ou pelo menos tendencialmente de esquerda. Sei que a maioria das pessoas dirão " Ah, é jovem, isso depois passa-lhe". Que é a coisa mais engraçada de se ouvir. Alguém que o reconheça, ser de esquerda é uma doença, um mal que se apanha na adolescência e passa quando nos tornamos adultos e responsáveis. Bem, não sei o meu dia de amanhã, mas prefiro isso a ter tido no meu carrinho de bebé um bandeirinha laranja, ou que o meu brinquedo em criança, fosse balões rosas ou laranjas. Que na adolescência tenha levado injecções de Cavaquismo. Ou que o meu cérebro tenha sido formatado ao Partido dos meus pais. Ao menos sei que tenho uma doença e que um dia irá me passar.
Uma das razões porque admiro o Francisco Louça, é porque o pai dele era aquele sujeito que estava ao comando das Fragatas no Rio Tejo no 25 de Abril. Quem viu o filme que já deu 25 vezes na televisão, sabe do que falo, aquele que ameaçou estourar o Salgueiro Maia a tiros de canhão não fosse dar-se o caso de haver um motim a bordo. Ou seja, era um Salazarista convicto. E dessa família tradicional, nasceu o revolucionário e sanguinário líder do bloco de esquerda. Onde pelo menos traçou o seu caminho e segue os seus ideais (certos ou errados).
Louça no debate com Adolf Sócrates foi considerado profano, traidor da pátria, tirano, caloteiro, por ousar defender a reestruturação da dívida. Se estivéssemos na idade média, que é o que parece ao assistir a estes debates, teria sido atirado à fogueira. Só que há aqui um factor que parece que ninguém leva em consideração, o Francisquinho das loiças dá um baile a todos os outros em economia, é o mais bem formado, o que mais percebe do assunto de caras. Se esquecêssemos as suas convictas ideologias e era um dos melhores ministro das finanças que podíamos ter. Sei que parece estranho a muita gente, pois como lutou pelas suas ideologias ao invés de enriquecer num banco ou num fmi qualquer, não é visto como gente credível . Ou seja como não se vendeu, não conta, a gente precisa de gente que se venda para os podermos comprar. Ah sociedade capitalista. Hoje fala-se que a Troika defende a reestruturação da dívida grega e os próximos seremos nós. O tempo dará razão a quem a tem. Como sempre.
Para finalizar, um dos factos que mais me orgulha ser de esquerda, é porque tenho a mente aberta. Pois ao que parece é uma característica unívoca a esquerdistas, pois de direita só há conservadores. E por isso não me choca nada tatuagens, brincos ou penteados esquisitos, o que interessa é a competência, e ver alguém de cabelo comprido e gravata como ministro não me choca. Mas isso é a mim. E por isso para mostrar o longo caminho que temos que percorrer ainda aqui fica a foto de Anders Borg, ministro das finanças sueco. Seria isto possível em Portugal? Sabemos que não. Cá qualquer político tem que ter o cabelo lambido por uma vaca.